quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
Drama juvenil minimalista passeia pelas ansiedades do amor
Um casal adolescente típico da Barra da Tijuca, região nobre do Rio de Janeiro, vive um namoro tranquilo até que ela anuncia que em seis meses irá se mudar para a França. Diante do conflito e das inseguranças que envolvem a situação, eles tentam levar a coisa da maneira mais saudável possível, mas ninguém é perfeito.
Que pensou em white people problems, está certo. São jovens brancos héteros, bonitos e com situação financeira confortável. Entretanto, apesar da saudável e necessária abertura que o cinema mundial e principalmente o Hollywoodiano vem dando a filmes que abordam problemas de minorias, é sempre bom saber que há espaço para todos. O Brasil não é só miséria, fome e violência. O rótulo de “filme de um casalzinho adolescente burguês” pode até se encaixar perfeitamente no filme de Matheus Benites, mas não o desqualifica como obra e nem ofusca seus méritos que são muitos.
O jovem diretor realizou a produção juntando R$ 12 mil com campanhas de Financiamento coletivo e fez um filme sensível, com ótimos diálogos, boas interpretações e que aborda um tema universal: a natureza dos relacionamentos humanos.
Embora os protagonistas interpretados por Gabriel Antunes e Maria Clara Parente sejam adolescentes, a natureza dos temas abordados: ciúmes, fidelidade, inseguranças, sexualidade, preocupação com o futuro, são inerentes a pessoas de todas as idades. Quem pensa o contrário deveria furar a bolha e prestar atenção em relacionamentos de idosos por exemplo. Vai por mim, meus pais fizeram Bodas de Ouro ano passado...
O filme lembra um pouco a trilogia Before de Richard Linklater, que mostra o relacionamento de um casal durante fases distintas separados por nove anos, sendo que cada filme foi produzido nove anos depois do outro. Fica aí a sugestão para o diretor de juntar o casal de atores daqui a dois ou três anos, quem sabe?
Com apenas dois atores em cena na sua uma hora e dez minutos de duração, o filme se sustenta nos diálogos naturalistas e na química do casal de atores. Sabemos que, ao se mudar para a França, a relação deles fatalmente irá se alterar e, provavelmente, vai acabar. Cada um deles está lidando com isso internamente e transmite para o outro o que seria a ponta do iceberg de seus dilemas, suas angústias e suas resoluções.
Com diálogos aparentemente banais, vamos entendendo a visão de mundo de cada um. As semelhanças e diferenças vão aparecendo. A química do jovem casal é impressionante. Gabriel Antunes e Maria Clara Parente fazem uma interpretação naturalista e provavelmente trouxeram para o texto experiências pessoais, tanto que estão ambos creditados no roteiro, algo muito semelhante ao trabalho de Linklater na trilogia Before.
O filme não é livre de problemas. A pobreza da produção pode ser vista principalmente na fraca captação de som que torna difícil, às vezes, entender o que os atores estão falando, principalmente na cena de abertura na praia. Ficamos sentindo uma falta de um desfecho mais consistente no terceiro ato. A impressão que se tem é que cenas importantes foram perdidas e a edição teve que se virar nos trinta depois.
O resultado, porém, é um filme sobre adolescentes que sai do lugar comum e nos convida a conhecer quase em tempo real, algumas horas de dois personagens com os quais nos identificamos e nos envolvemos. “Antes que ela vá” consegue nos passar um pouco da angústia de quem sabe que seu romance tem data marcada para acabar. Aprendemos com eles que aquilo não é o fim do mundo e que eles devem aproveitar aquilo de bom que sua relação tem enquanto podem. Assim, através de dois adolescentes, entendemos que todos os romances de certa forma também são assim, a vida é assim. Não posso dizer com certeza se esta era a intenção do diretor, mas fica a dica de um filme que consegue nos passar uma mensagem profunda sem soberba, sem pretensões e de maneira leve. Agora é torcer para que o casal aproveite o tempo que vão ter juntos. É o mesmo que todos nós deveríamos fazer.
Clinton Davisson é jornalista e escritor, pós-graduado em educação e mestre em comunicação e doutorando em comunicação. Autor de quatro livros, entre eles, a premiado Hegemonia – O Herdeiro de Basten.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
Segunda edição ampliada do sucesso literário, vencedor do prêmio Nautilus e finalista do prêmio Portugal Telecom de Literatura.
Orgulhosos de sua supremacia militar e cultural sobre as outras civilizações da galáxia, os disonianos se autodenominaram A Hegemonia. Seu império e sua cultura, entretanto, estão ruindo lentamente e seus cidadãos migram em massa para a realidade virtual em busca de um mundo onde não há frustrações, nem tristeza. Neste cenário, o jovem estudante Ron Schowlen compra um diário neural e começa a gravar seus pensamentos e sua rotina na capital da Hegemonia; até que uma decepção o faz abandonar tudo e voltar, depois de dez anos, para Elôh, seu planeta natal. Lá ele vai ter que reencontrar seus irmãos, Shodan e Dúnia, soberanos do reino de Basten. A tensão entre os três só é quebrada pelo pedido de ajuda de uma tribo distante de marsupiais cuja vila está sendo invadida pelos agressivos dragões vermelhos. Durante a viagem pelo cenário grandioso do planeta Elôh, com seu anel de fogo e suas aberrações gravitacionais, Ron vai conhecer melhor a economia e a cultura de um mundo cheio de contrastes sociais e diversidades religiosas. Enquanto se preparam para a derradeira batalha contra os dragões, Ron e seus irmãos vão descobrir que, nos domínios da Hegemonia, nem tudo é o que parece e a verdade pode ser algo muito mais terrível do que nosso pior pesadelo.
sábado, 5 de abril de 2014
terça-feira, 29 de maio de 2012
terça-feira, 8 de julho de 2008
Minha passagem preferida do Richard Bach
Uma vez havia uma aldeia de criaturas no fundo do leito de um grande rio cristalino. A corrente do rio passava silenciosamente por cima de todos eles, jovens e velhos, ricos e pobres, bons e maus, a corrente seguindo o seu caminho, só conhecendo o seu próprio ser cristalino. Cada criatura, a seu modo, se agarrava fortemente às plantas e pedras do leito do rio, pois agarrar-se era o seu modo de vida, e resistir à corrente era o que cada um tinha aprendido desde que nascera. Mas uma das criaturas disse, por fim: "Estou farto de me agarrar. Embora não possa ver com meus próprios olhos, espero que a corrente saiba para onde está indo. Vou soltar-me e deixar que ela me leve para onde quiser. Se me agarrar, morrerei de tédio. As outras criaturas riram-se e disseram:
- "Louco! Se você se soltar, essa corrente que você adora o lançará despedaçado sobre as pedras e sua morte será mais rápida do que a causada pelo tédio! Mas aquele não lhes deu ouvidos e, respirando fundo, soltou-se, e imediatamente foi lançado e despedaçado pela corrente sobre as pedras! Mas com o tempo, como ele se recusasse a tornar a se agarrar, a corrente o levantou, livrando-o do fundo, e ele não se machucou nem se magoou mais. E as criaturas mais abaixo no rio, para quem ele era um estranho, exclamaram: "Vejam, um milagre! Uma criatura como nós, e no entanto voa! Vejam, é o Messias que chegou para nos salvar! E aquele que foi carregado pela corrente disse: "Não sou mais Messias do que vocês. O rio tem prazer em nos erguer à liberdade, se ousarmos nos soltar. O nosso verdadeiro trabalho é essa viagem, essa aventura. No entanto, cada vez exclamavam mais "Salvador!", enquanto se agarravam às pedras; quando tornaram a olhar, ele se fora, e eles ficaram sozinhos, inventando lendas sobre um Salvador.” E quando viu que a multidão cada vez o seguia mais de perto, mais terrível do que nunca, quando viu que insistiam para que ele os curasse sem descanso, e sempre os alimentasse com seus milagres, e aprendesse por eles e vivesse suas vidas, foi sozinho para o topo de um morro e rezou. E disse em seu íntimo, Ser Infinito Radioso, Se for a tua vontade, deixa que esta taça passe de minhas mãos, deixa-me pôr de lado esta tarefa impossível. Não posso viver a vida de uma outra alma, no entanto dez mil me imploram a vida. Sinto ter permitido que tudo isso acontecesse. Se for a tua vontade, deixa-me voltar aos motores e às ferramentas e viver como os outros homens. E uma voz lhe falou no topo do morro, uma vez que não era de homem nem de mulher, nem forte nem fraca, uma voz infinitamente bondosa, que lhe disse:
“Não a minha vontade, mas a tua seja feita. Pois o que for a tua vontade será a minha vontade para ti. Segue o teu caminho e sê feliz na terra.” E ao ouvir aquilo o Mestre alegrou-se, deu graças e desceu de cima do morro cantarolando uma cançãozinha de mecânico. E quando a turba o atormentava com seus males, implorando que os curasse, aprendesse por eles, os alimentasse constantemente com sua compreensão e os divertisse sempre com suas maravilhas, ele sorriu para a multidão e disse amavelmente: “Eu desisto.” Por um momento a multidão ficou muda de espanto. E ele lhes falou:
- “Se um homem dissesse a Deus que o que queria mais que tudo era auxiliar o mundo sofredor, fosse qual fosse o preço para si, e Deus lhe respondesse o que devia fazer, o homem deveria fazer o que lhe era ordenado?”
- “Pois claro, Mestre! ”exclamaram. “Devia ser para ele um prazer sofrer as torturas do próprio inferno se Deus lha pedisse!”; “Não importa quais fossem essas torturas, nem a dificuldade da tarefa?”; “Seria uma honra ser enforcado, uma glória ser pregado a uma árvore e queimado, se fosse isso que Deus pedisse”, disseram eles.
- “E o que fariam vocês, perguntou o Mestre à multidão, se Deus lhes falasse diretamente, em pessoa, e dissesse:
"ORDENO QUE SEJAS FELIZ NO MUNDO, ENQUANTO VIVERES." O que fariam então?”
E a multidão calou-se e nem uma voz ou som foi ouvido sobre os morros e pelos vales. E o Mestre disse:
- “No caminho de nossa felicidade encontraremos o conhecimento para o qual escolhemos esta vida. É assim que aprendi hoje e prefiro deixa-los agora para seguirem o seu caminho.”
E seguiu o seu caminho no meio da multidão e voltou ao mundo dos homens e dos motores.
Extraído do livro "Ilusões - As Aventuras de Um Messias Indeciso
- "Louco! Se você se soltar, essa corrente que você adora o lançará despedaçado sobre as pedras e sua morte será mais rápida do que a causada pelo tédio! Mas aquele não lhes deu ouvidos e, respirando fundo, soltou-se, e imediatamente foi lançado e despedaçado pela corrente sobre as pedras! Mas com o tempo, como ele se recusasse a tornar a se agarrar, a corrente o levantou, livrando-o do fundo, e ele não se machucou nem se magoou mais. E as criaturas mais abaixo no rio, para quem ele era um estranho, exclamaram: "Vejam, um milagre! Uma criatura como nós, e no entanto voa! Vejam, é o Messias que chegou para nos salvar! E aquele que foi carregado pela corrente disse: "Não sou mais Messias do que vocês. O rio tem prazer em nos erguer à liberdade, se ousarmos nos soltar. O nosso verdadeiro trabalho é essa viagem, essa aventura. No entanto, cada vez exclamavam mais "Salvador!", enquanto se agarravam às pedras; quando tornaram a olhar, ele se fora, e eles ficaram sozinhos, inventando lendas sobre um Salvador.” E quando viu que a multidão cada vez o seguia mais de perto, mais terrível do que nunca, quando viu que insistiam para que ele os curasse sem descanso, e sempre os alimentasse com seus milagres, e aprendesse por eles e vivesse suas vidas, foi sozinho para o topo de um morro e rezou. E disse em seu íntimo, Ser Infinito Radioso, Se for a tua vontade, deixa que esta taça passe de minhas mãos, deixa-me pôr de lado esta tarefa impossível. Não posso viver a vida de uma outra alma, no entanto dez mil me imploram a vida. Sinto ter permitido que tudo isso acontecesse. Se for a tua vontade, deixa-me voltar aos motores e às ferramentas e viver como os outros homens. E uma voz lhe falou no topo do morro, uma vez que não era de homem nem de mulher, nem forte nem fraca, uma voz infinitamente bondosa, que lhe disse:
“Não a minha vontade, mas a tua seja feita. Pois o que for a tua vontade será a minha vontade para ti. Segue o teu caminho e sê feliz na terra.” E ao ouvir aquilo o Mestre alegrou-se, deu graças e desceu de cima do morro cantarolando uma cançãozinha de mecânico. E quando a turba o atormentava com seus males, implorando que os curasse, aprendesse por eles, os alimentasse constantemente com sua compreensão e os divertisse sempre com suas maravilhas, ele sorriu para a multidão e disse amavelmente: “Eu desisto.” Por um momento a multidão ficou muda de espanto. E ele lhes falou:
- “Se um homem dissesse a Deus que o que queria mais que tudo era auxiliar o mundo sofredor, fosse qual fosse o preço para si, e Deus lhe respondesse o que devia fazer, o homem deveria fazer o que lhe era ordenado?”
- “Pois claro, Mestre! ”exclamaram. “Devia ser para ele um prazer sofrer as torturas do próprio inferno se Deus lha pedisse!”; “Não importa quais fossem essas torturas, nem a dificuldade da tarefa?”; “Seria uma honra ser enforcado, uma glória ser pregado a uma árvore e queimado, se fosse isso que Deus pedisse”, disseram eles.
- “E o que fariam vocês, perguntou o Mestre à multidão, se Deus lhes falasse diretamente, em pessoa, e dissesse:
"ORDENO QUE SEJAS FELIZ NO MUNDO, ENQUANTO VIVERES." O que fariam então?”
E a multidão calou-se e nem uma voz ou som foi ouvido sobre os morros e pelos vales. E o Mestre disse:
- “No caminho de nossa felicidade encontraremos o conhecimento para o qual escolhemos esta vida. É assim que aprendi hoje e prefiro deixa-los agora para seguirem o seu caminho.”
E seguiu o seu caminho no meio da multidão e voltou ao mundo dos homens e dos motores.
Extraído do livro "Ilusões - As Aventuras de Um Messias Indeciso



